Tokugawa Ieyasu foi um estrategista militar brilhante, inclusive em tempos de paz. Ele foi o vencedor categórico do caótico período Sengoku no Japão e arquiteto do período Edo que se seguiu.
O caos do Sengoku Jidai (período Sengoku) na história do Japão tornou-se emblemático. Durante o período Edo que se sucedeu, marcado por paz e prosperidade, os samurais não tinham muito o que fazer além de se entreter com histórias sobre grandes batalhas, líderes e acontecimentos dessa época: ninjas, generais, exércitos, cercos e assuntos do gênero. Grande parte do nosso imaginário sobre o Japão feudal é produto dessas histórias, floreadas e romantizadas.
O período Sengoku foi uma extensa guerra entre clãs rivais em busca de poder. O fraco xogunato Ashikaga sucumbiu, o que fez do imperador uma mera figura simbólica e deixou vago o cargo mais poderoso: o de xogum, o chefe militar do imperador. Por mais de um século, daimiôs (senhores feudais) e samurais disputaram esse título, e em meio a essas batalhas foram surgindo outros elementos: cristãos, armados com mosquetes por europeus, ikkō-ikki antimonárquicos e os ninjas, estrategistas militares sem um código de honra, capazes de cometer atrocidades em nome de seus senhores. Três samurais se distinguiram nesse período: Oda Nobunaga, Toyotomi Hideyoshi e Tokugawa Ieyasu.
Há uma anedota que reflete bem as personalidades e motivações desses líderes. Certa vez, os três homens estavam reunidos observando um passarinho que se recusava a cantar. Oda lança uma ameaça: "passarinho, se você não cantar, eu vou matá-lo". Hideyoshi tenta a manipulação: "passarinho, se você não cantar, eu vou persuadi-lo". Já Tokugawa, o mais perspicaz, simplesmente diz: "passarinho, eu posso esperar". Essa história demonstra como ter calma e paciência são as chaves para a vitória, e foi isso que aconteceu no Japão.
Oda, o "rei demônio", fez jus a esse nome. Como líder do clã Oda, Nobunaga mobilizou suas tropas de modo a devastar toda a ilha principal do Japão, derrotando os ikkō-ikki e destituindo totalmente o xogunato Ashikaga. Seu último obstáculo era o poderoso clã Mōri, no oeste, que possivelmente também teria sido derrotado não fosse a traição de um dos aliados do próprio Oda. Ao ver Akechi, o general traidor, caminhando em sua direção enquanto estava relativamente desprotegido, tomando chá em um templo de Quioto, Oda cometeu suicídio. O futuro xogum, Tokugawa, também fugiu na companhia do ninja Hattori Hanzō (que nessa época ainda era um samurai).
O clã Toyotomi, liderado pelo ex-serviçal Toyotomi Hideyoshi, assumiu a bandeira de Oda e o controle temporário do Japão. Sob o comando de Hideyoshi, as forças japonesas tentaram conquistar a Coreia, e não seria pela última vez. Contudo, até os reis mais grandiosos têm fim, e Hideyoshi, que dedicou-se muito à expansão territorial, havia deixado os cofres japoneses vazios. Houve uma crise de sucessão entre os apoiadores do clã Toyotomi e os do novo clã Tokugawa, formado por um vassalo regional de Oda sob a liderança de Tokugawa Ieyasu. A crise culminou na Batalha de Sekigahara, na qual Tokugawa provou-se dominante e começou a juntar os cacos da guerra.
Foi uma época de caos para o Japão. Novas ideias invadiam o país, como o republicanismo (aqui com o sentido de o povo governar) e o cristianismo. O comércio europeu e a entrada de armas também representavam um problema. Tokugawa tomou as rédeas implementando a política de sakoku, o isolamento. Ele fechou todas as fronteiras do Japão, exceto Nagasaki. Isso barrou a chegada de novos desafios ameaçadores para o novo xogunato Tokugawa e também o tipo de aventura no estrangeiro que havia causado problemas financeiros a Hideyoshi. A política de sakoku não foi nada desastrosa para o Japão. A produção local se desenvolveu e o Japão teve paz e prosperidade durante o que se tornou conhecido como período Edo (cidade-sede do xogunato). Além do mais, as nações vizinhas não tiveram mais que se preocupar com samurais desembarcando em suas praias.
O sistema de controle exercido por Tokugawa foi brutal. Ainda havia famílias nobres, mas o xogum criou uma estratégia astuta para mantê-las obedientes. Enquanto os nobres governavam suas próprias províncias, as famílias deles permaneciam como "reféns" em Edo. Assim, qualquer tipo de rebelião podia ser contida imediatamente com uma simples ameaça à família do rebelde. Isso também significava que a corte de Edo era repleta de nobres. Samurais ricos, porém entediados, viviam de histórias e aspirantes a guerreiros lutavam por honra, em vez de por terra. Foi nessa época que surgiu a famosa cultura ukiyo-e, o "mundo flutuante" do entretenimento, assim como artistas e escritores ligados a ela.
O país foi escancarado no século XIX com a chegada (e ameaça de permanência) de navios americanos exigindo a abertura comercial. O Japão então percebeu que o mundo tinha se desenvolvido sem eles e que invenções, como armas de fogo e canhões, haviam se tornado um tanto perigosas. Embora a reabertura tenha sido traumática e o período Meiji, que veio depois, tenha eliminado grande parte do sistema feudal japonês, a infraestrutura já existente permitiu que, dentro de poucas décadas, Meiji pudesse enfrentar e derrotar alguns dos Estados mais poderosos do mundo. Mas vamos deixar essa história para depois.