O mais progressista e internacionalista dos imperadores Ming, Yongle criou a base do sistema internacional da dinastia Ming e reformou sua infraestrutura. Ele fez isso através de uma campanha implacável por legitimidade, na qual destruiu todos os oponentes à sua reivindicação e em seguida se expandiu para outras nações, conseguindo apoio e ouro estrangeiro para o que viria a ser o principal império chinês.
A dinastia Ming foi uma época de reconsolidação para a China, quando, depois de anos de domínio estrangeiro, os chineses da etnia Han estabeleceram um poder centralizado que perdurou e se manteve próspero por séculos. O império Ming era rico, pacífico e, durante certo tempo, avançado. Eles também eram bem-sucedidos em incorporar vizinhos à sua órbita. O sistema tributário uniu boa parte do Leste Asiático em uma aliança que trouxe estabilidade para a região e a disseminação de valores confucionistas. Com o passar do tempo, entretanto, o império Ming tornou-se complacente e isolado, e apesar de ter largado muito à frente de seus concorrentes, saiu enfraquecido, dependente de ouro estrangeiro e despreparado para as mudanças que haviam ocorrido no mundo.
Nada disso teria ocorrido, se dependesse do Imperador Yongle.
Yongle nasceu em 1360 com o nome de Zhu Di. Ele era o segundo filho de outro grande imperador Ming, o Imperador Hongwu (que também seria um ótimo candidato a líder). Dessa forma, era uma pessoa importante, um comandante militar que vinha lutando contra os mongóis – tanto os que restavam da dinastia Yuan como os grandes canatos do oeste. Zhu Di era o segundo na linha de sucessão ao trono, depois de seu irmão mais velho, Zhu Biao. Ao menos, é o que diz a história... Também existem relatos de que Zhu Di não era filho da consorte principal do imperador, mas sim de uma concubina.
De todo modo, Zhu Biao era o filho preferido do pai e essa preferência também se estendia para a família dele. Portanto, quando Zhu Biao morreu subitamente, o Imperador Hongwu nomeou como herdeiro do trono o filho de Zhu Biao, e não Zhu Di... E assim, Zhu Di se rebelou.
Zhu Di travou uma guerra por três anos e saiu vitorioso, mudando seu nome para Imperador Yongle. Em seguida, ele varreu a burocracia numa busca implacável por qualquer rastro de influência de seu sobrinho, que de fato era considerável. Os preceitos confucianos defendiam um governo pacífico, portanto, muitos eruditos opuseram-se à tomada do poder, enquanto outros acabaram sendo associados a eles. Yongle ordenou a morte de seus inimigos, em especial do célebre Fang Xiaoru, mas também de todos que haviam sido aprovados em testes durante o tempo de Fang, todos os parentes dele (até o décimo grau), entre outros. Milhares de pessoas foram mortas. Além disso, Yongle baniu a cultura mongol, que fora predominante na dinastia Yuan.
Yongle se dedicou então a criar uma nova sociedade. Ele expandiu o papel dos eunucos, formando uma polícia secreta (o Depósito Oriental) leal ao imperador. Ele também expandiu o papel dos eruditos e historiadores, pelo menos daqueles que concordaram em riscar seu sobrinho da história (e, alguns dizem, reescrever a história, tornando Yongle filho da imperatriz, em vez da concubina coreana). O poder também passou a ter uma nova sede: a Cidade Proibida, construída para estabelecer Pequim como a nova capital, mais próxima às frentes de batalha mongóis (para facilitar a guerra) e os antigos postos avançados militares de Yongle. Isso também levou à reconstrução e fortificação da Grande Muralha, além da reabertura do Grande Canal.
Hongwu (o pai de Yongle) era um adepto do isolamento, política que, curiosamente, acabou sendo a ruína do império Ming. Yongle, contudo, era o completo oposto. Ele procurou cultivar e expandir ativamente o sistema tributário, sempre em busca de possíveis contribuintes novos. Esse foi justamente o motivo das jornadas de Zheng He, que viajou até a Índia, o Golfo Pérsico e a África, embora os contribuintes tenham se restringido só ao Leste Asiático. Outra questão significativa foi a aspiração pelo Tibete, uma fonte histórica de conhecimento budista, inclusive durante a dinastia Ming. No âmbito militar, Yongle atacou a Mongólia e o Vietnã, incorporando o último ao seu império e desencadeando o massacre da dinastia Tran.
Outra grande proeza foi a Enciclopédia de Yongle, uma obra colossal que sintetizava todo o conhecimento chinês até então, embora trouxesse poucas novidades.
Yongle morreu durante uma campanha militar contra os mongóis em 1424, aos 64 anos de idade.